


EM JEITO DE ABRAÇO
nesta apaziguante obscuridade
da madrugada
encarquilhada pela brisa fresca
que se esconde na erva rasa da encosta
os barcos vivos
tornam possível mudar as margens
os passos das águas do rio
o sol que se reflecte em mil paletas
nos voos das gaivotas
que não andam em bandos
.
vida que se suspende
perdida no horizonte
em jeito de lago
abraço quente
entre ruídos abafados
tragados pela terra
FERNANDO MANUEL PEREIRA

SOBRESSALTO
suam cansaços por entre a luz
das chamas altas
poiso de mil ilhas verdejantes
como retrato intimista
deambulando sem império
cânticos de guerra
na obscuridade infinita da noite
rodopiam no céu a remoer memórias
agitadas pelo vento
coreografando alegorias
dramáticamente
na floresta dos sentidos recém cortados
.
imóvel persigo poemas
fechados em gavetas...
FERNANDO MANUEL PEREIRA

POR ENTRE ÁGUAS
delírio
sustentáculo
desencanto
tolerado zumbido familiar
improviso à viola
beatice festiva
vida cercada
freiras imprudentes
poetas vadios
de roldão na esteira rimática
.
trovador de viola
nascido em aváro báu
ninho de glosas estropiadas
criando raízes
no rio líquido e salgado
estrofes
outeiros
festas em pátios
de conventos
embrulhada em hábitos
.
mordaz veemência
sobressalto sensorial
bulícios das sombras
na íngreme escarpa de rocha
povaréu espiando
incorpóreos
baleias e baleeiros
é preciso distância
para as respostas
em formação calcária
FERNANDO MANUEL PEREIRA

A CERTEZA DE ESTAR
gaivotas doidas neste cais de anoitecer citadino burgês
dança copos maresias de sol poente sinuosos corpos
pra lá do horizonte nas nuvens ramos arbustos o silêncio
junto ao rio olhando o mar em ninho de terra cultivada aceite
.
amigos de luta agora tecida na raiva entre apelos
merendas de povo caminhantes jornas de sangue jornadas
pequenas vielas de ruas conservadas museus de passos construídos
abraços ancinhos enxadas revolta dos dias dos dedos as mãos
.
alimentam-se as veias percurso estendal de sonhos sementeiras
chama-se à luz da vela candeeiros aldeias de pedra pensadas escondidas
unhas rasgando paredes fontanários risos nocturnos trigais
de descrença novos rumos novas serras a lua que no sol cai
.
gaivotas do meu sonho agora adulto escondem-se no vento espiam
bailes copos trovoadas de sóis poentes terra vibrante ensandecida
alagada prole de ondas adormecidas searas jovens a romper
adiados abraços dedos e gritos palavras desfeitas talvez poemas
FERNANDO MANUEL PEREIRA


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