

CIDADE INQUEBRÁVEL, VIVIDA
cidade antiga de céu afagando a serra
íntimo horizonte amplo de ilusões tradições
gaivotas planando amando acima do rio
cântigo de voos sussurados nas ondas
em segredo de vida melodia
como sombra errante eclodindo da noite
ventos espuma de ondas desnudas recordações
união entre o homem e a terra concebida
.
poço do passado a cair no imenso abismo
dos passos antigos repetidos memórias
como um sonho em que nos afundamos
de pedras e ruas barcos e remos navegados
a pensar no azul líquido do rio da nossa saudade
rumos consentidos madrugadas de fainas
melancolia a envolver-nos na sua afastada doçura
restos de sol poente incendiado
.
furtivamente visitado fugido por montes e vales
o tempo a correr sobre recordações desenfreadas
como olhares de crianças tristes teia de fios de mel
doce torpor em poalha d'água imutáveis
secreto desejo campos e laranjais terra virgem
barcos e rumos de ondas imaginadas abençoadas
melodia que embala da minha meninice
memórias de luta inquebráveis.
FERNANDO MANUEL PEREIRA







SONHO FUGIDO

nascidas das ruínas da guerra
lágrimas a cairem de olhares cegos
a desabarem como chuva
enrolando-se nos teus olhos
largos glaciares a derreterem-se
onde a palavra não toca não fala
.
caos orgânico da cidade geométrica
vivência do segredo engolido pelo jardim
suspenso nas vagas de espuma
que galgam muralhas
tuas mãos secretas luas sem sentido
moldam-te no +intimo de mim
.
entranhável realidade
como a vida decorre
retoma e articula
emerge específica
meus desejos caindo
no vazio da tua ausência
.
canto suspenso sem concessões
à luz das velas a apróximar memórias
teus lábios como potes de lume
murmurando dilemas de loucos
sem a grandeza de outrora
melodia que embala meus pensamentos.
FERNANDO MANUEL PEREIRA







SOL I LÓQUIO
1
nesta solitária dança
em que tudo se esboroa
como refrão a explodir
em lugar incerto
envolvido no manto insalubre
da água a mudar de lugar
em capricho de marés
lento e intimista percorro a cidade
perdida em si mesma
melodrama garrido
perto do mar escondido
depois dos telhados vermelhos
.
2
ruas em leitos vazios de ribeiros
onde se teceram juras e promessas
o som fraco da respiração
acompanha o vento
onde as aves nidificam
antes da noite chegar
rendilhada de calçadas de granito
onde brilham letras ao longo do dia
como fardas de revolucionários
em constante recomeço
enleando-se no cume da serra
como segredos de ontem e de hoje.
FERNANDO MANUEL PEREIRA







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