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POESIA sempre EM LUTA

Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo.
Gravatar Um Poema, meus Amigos, é a gestão de pequenos consensos e muitas divergências.

Se quiseres escrever-me

POEMAS DA NOSSA VIDA

poesiasempreemluta — 31-07-2007 GTM 1 @ 22:02

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COMO CAI UMA FLOR


 .

no meu jardim há uma árvore. dá flores bonitas na primavera e só se despede delas no verão.

cuido dela como se deve cuidar qualquer árvore. e ela ergue-se vigorosa abraçando as estrelas com braços que só dançam quando lhes sopra o vento. claro que ela trata de mim como é suposto ser tratado por uma árvore. ela acolhe-me sempre, verdejante ou negra, tanto faz.

junto à raiz a terra tem um cheiro diferente, cheira a comunhão. e seja verão, outono, inverno ou a outra estação há sempre nela um espelho múltiplo de sensações. há um jardim tenebroso e oculto para as minhas lágrimas, uma sombra fresca para os meus sorrisos de criança.

quando senti medo da morte, um dia, foi a ela que me cheguei.
caíam os raios de sol oblíquos como se o próprio deus sobre a terra se lançasse.
olhei a copa com flores, fiz as perguntas que tinha a fazer.
a resposta foi a mais clara: lenta e naturalmente, caiu uma pequena flor.

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POEMA SEM TI

poesiasempreemluta — 31-07-2007 GTM 1 @ 21:10

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SONHO LÚCIDO

brandas asas

por entre árvores voando

veias de sal

nesta madrugada tardia

esperança desgarrada

ocioso dia

.

agrilhoados ao destino

em linha

como pássaros em vedação

à beira do cais

pátria dos deserdados

amores desvendados mistérios

.

arco-íris luz fóssil

que se retorce na terra

pesada de calor

e silêncio sonho lúcido

neste limite das palavras

para dizer que te amo

.

 FERNANDO MANUEL PEREIRA

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UMA DISTINÇÃO

poesiasempreemluta — 30-07-2007 GTM 1 @ 18:29

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OBRIGADO, queridas Amigas,  

POESIA sempre EM LUTA

AGRADECE O CARINHO E O

INCENTIVO !

 

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 .

A POESIA É A ARTE DE MATERIALIZAR SOMBRAS E DE DAR EXISTÊNCIA AO NADA |E. BURKE

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.
Cada navio tem dois ermos extremos
As velas para Vénus e a quilha para Neptuno.
Mas a viagem é o mar com o infinito à vista
E as palavras como brancos lenços agitados.
.
Cada pássaro de lume que partilhe essa viagem
Na repetida vibração de cada intacto segundo
É um sol desenrolado nos panos duma silenciosa
Aventura.
.
Inútil decifrarmos este navio-oráculo sedento
De todas as fontes adormecidas.
.
Se existir um navio de sílabas e sal construído
Embarca o corpo nessa perfeita armadilha da
Alma.
.
LUÍS FILIPE ESTRELA
(in ENTRE AS PALAVRAS E O SILÊNCIO)
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 .
SONHO
.
Ouvi cantar e pensei
Ser a voz de uma sereia
Em noite de Lua cheia
Ouvi cantar e sonhei
.
Sonhei que andava no mar
Entre as vagas navegando
Ouvi leve sussurrar
Era a sereia cantando
.
Cantava uma canção
Ao seu amor marinheiro
Que tinha sido o primeiro
Dono do seu coração
.
Coração que volta e meia
Se deixava seduzir
Era assim esta sereia
Que ao sonhar julgava ouvir
.
JOSÉ RAPOSO
(in AFECTOS E CUMPLICIDADES)
.
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.
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SÓ EXISTE, SUBVERTE
.
paisagem transbordando como uma ilha
pontilhada de lugares cheiros contido olhar
labirinto na pele como tatuagem em osso de baleia
correndo atrás de um desejo moribundo
talvez para que só esta noite exista
.
pintor sem lugares preenchidos fragilidades
tela oceânica de passos apressados
salientes nos nossos olhos riscam poços do mar
fora do alcance das explosões invisíveis
quebram caminhos diferentes estímulos nas nuvens
.
ilha atlântica em manifesto de fogo contido
fruição nítida soprando erguendo estrelas anãs
seres errantes seculares fixos às pedras nascidas
enraizadas nas areias rugosas do mundo submerso
buscam o que não existe ou se existe não sonhei
.
FERNANDO MANUEL PEREIRA
.
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UM POEMA DA VIDA

poesiasempreemluta — 27-07-2007 GTM 1 @ 21:18

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 EIS A NETA LINDA DO POETA VICTOR SERRA

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Foi hoje

com o sol a descer sobre a cidade

e as pedras da calçada trnaformadas

em côr rubra incandescente

que as crianças despejaram toda a sua juventude

para o meio da multidão acumulada

tornam-se vítrias as pessoas

ao som dos passos das crianças

encobrindo-se nos subúrbios da cidade

onde não pudessem retomar os pensamentos.

E as crianças em marcha triunfal

vêem tomar mais uma vez esta cidade.

(poema extraído do livro ESTAR POR FORA, do poeta VICTOR SERRA)

 

ARESTAS DE VENTO

poesiasempreemluta — 27-07-2007 GTM 1 @ 18:23

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RICARDO CARDOSO e CÉU CAMPOS, responsáveis pela equipa que todos os domingos leva à antena da Rádio PALFM, 102.2 (ou na NET em www.palfm.com) o programa de larga audiência e não menos polémico ARESTAS DE VENTO, convidaram para o próximo dia 29 de Julho, das 12 às 14 h., o cantor, compositor e instrumentista JORGE GANHÃO, alentejano convicto sem papas na língua, actualmente considerado um dos melhores músicos ibéricos.

Certamente MAIS UMA entrevista que ficará registada a letras de oiro!

DOMINGO, ENTRE AS 12 E AS 14 H., EM PALFM 102.2 - OU www.palfm.com - A NÃO PERDER !

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PARTE, NÃO VOLTA

.

1

suave brisa amamentando

breves murmúrios

a tarde a descer

até tocar o rio

na praia de algas

adormecem leves suspiros.

.

2

constelação

a arder evasão efémera

essencial solidão massacre

imprecaução catástrofe

folga de dia santo

café ao pequeno almoço.

.

3

dilatada estranheza

flutuava

completamente só

alheia ao tempo

amores esquecidos

nos amores que começam...

FERNANDO MANUEL PEREIRA

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POEMAS PARA MIM

poesiasempreemluta — 26-07-2007 GTM 1 @ 00:35

  

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TEU CORPO COMO ESPAÇO

 

uma vida com trilhos de passagem, ar de noite, ventosa,

por onde pressentidos sonhos circulam, alvos colos, apressados,

promessas como mantos largos e quentes em época invernosa,

argila esfarelada por entre dedos, de afagos livres, endiabrados.

.

partilhar contigo promessas, restingas de amores perseguidos,

areias de campo e mar, sons de gestos lineares, pálidas luzes,

amores enleados, ciciados nos teus seios quentes e prometidos,

vãos percursos desenhados em lençõis circulares, alcatruzes.

.

teu corpo como espaço impreciso entre um beijo e outro, consentido,

clama desejos, sensações de tela pintada, exposta à vista, iluminada,

éden de maçãs, tentação de serpente escondida, quente e concedido,

colado ao meu, na descoberta breve do amor como serpente desejada.

.

amo teu espírito de estrelas, céu azul cúmplice como planta volúvel,

mulher, fermento de utopias e revoltas, ventre de desejos escondidos,

trazendo da terra que alimenta, pássaros de beijos, cheiro de mel

e o instante único duma manhã de sol, por entre vagas de sentidos.

.

amar é atravessar um rio para chegar mais além...

.

FERNANDO MANUEL PEREIRA

 

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EMBALOS

Meio escondidos na escuridão

velhos contadores de histórias

caminham direito ao cepo

aniquilando-se mutuamente

raivosos

em puro desespero

sonho mau em cavidade negra

ansiedade

canto de camponesas embrenhado no nevoeiro

voos perdidos

.

as andorinhas sobrevoam

a matriz original

ninhos desfeitos

ondas a brincarem com a morte

inconscientes

abismos da noite

mar de aragem em voos dirfarçados

dança suave

vagos e baços

impotentes contra a memória de um morto

FERNANDO MANUEL PEREIRA

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SONHOS, PROMESSAS

 

um amor igual ao meu batia no centro da terra, em desordem,

livre, na revolta contra mim próprio até ao extremo do mundo,

devorado por um remoinho de fumo, banhando-se no nevoeiro,

como ramagens que se estendem para o sol, dispersas, atarefadas,

desgrenhadas, sonhos voando de promessas em promessas, noctívagos

.

amor rumor em apelo contra as trevas, nua até aos ossos, até à pele,

memória do mundo coberto com sua asas constelada, em desordem,

aguaceiros de conchas e algas, gritos doidos de estátuas vazias,

amores passados que regressam à vida na frescura das noites, reclamadas,

espécie de soluço consumindo a vida, bêbado pedindo um último copo

 FERNANDO MANUEL PEREIRA

 

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PECÚLIO

.

ruído abstracto incolor      fremindo

transparente medusa primitiva      se evolara

abraços que não chegam ao destino      atropelos

ululante multidão volúvel      imagens

vida dispersa em copo de água agitada      mutável

cheiro breve de terra molhada      no espelho

.

no horizonte de todas as vidas

amar sem medida      nem prudência

como pecúlio numa lata enterrada

.

FERNANDO MANUEL PEREIRA

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SEMPRE HÁ...

poesiasempreemluta — 25-07-2007 GTM 1 @ 19:34

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POEMAS PARA MIM

poesiasempreemluta — 25-07-2007 GTM 1 @ 17:41

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 EM JEITO DE ABRAÇO

 

nesta apaziguante obscuridade

da madrugada

encarquilhada pela brisa fresca

que se esconde na erva rasa da encosta

os barcos vivos

tornam possível mudar as margens

os passos das águas do rio

o sol que se reflecte em mil paletas

nos voos das gaivotas

que não andam em bandos

.

vida que se suspende

perdida no horizonte

em jeito de lago

abraço quente

entre ruídos abafados

tragados pela terra

 

FERNANDO MANUEL PEREIRA

 

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SOBRESSALTO

 

suam cansaços por entre a luz

das chamas altas

poiso de mil ilhas verdejantes

como retrato intimista

deambulando sem império

cânticos de guerra

na obscuridade infinita da noite

rodopiam no céu a remoer memórias

agitadas pelo vento

coreografando alegorias

dramáticamente

na floresta dos sentidos recém cortados

.

imóvel persigo poemas

fechados em gavetas...

 

FERNANDO MANUEL PEREIRA

 

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POR ENTRE ÁGUAS

 

delírio

sustentáculo

desencanto

tolerado zumbido familiar

improviso à viola

beatice festiva

vida cercada

freiras imprudentes

poetas vadios

de roldão na esteira rimática

.

trovador de viola

nascido em aváro báu

ninho de glosas estropiadas

criando raízes

no rio líquido e salgado

estrofes

outeiros

festas em pátios

de conventos

embrulhada em hábitos

.

mordaz veemência

sobressalto sensorial

bulícios das sombras

na íngreme escarpa de rocha

povaréu espiando

incorpóreos

baleias e baleeiros

é preciso distância

para as respostas

em formação calcária

 

FERNANDO MANUEL PEREIRA

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A CERTEZA DE ESTAR

 

gaivotas doidas neste cais de anoitecer citadino burgês

dança copos maresias de sol poente sinuosos corpos

pra lá do horizonte nas nuvens ramos arbustos o silêncio

junto ao rio olhando o mar em ninho de terra cultivada aceite

.

amigos de luta agora tecida na raiva entre apelos

merendas de povo caminhantes jornas de sangue jornadas

pequenas vielas de ruas conservadas museus de passos construídos

abraços ancinhos enxadas revolta dos dias dos dedos as mãos

.

alimentam-se as veias percurso estendal de sonhos sementeiras

chama-se à luz da vela candeeiros aldeias de pedra pensadas escondidas

unhas rasgando paredes fontanários risos nocturnos trigais

de descrença novos rumos novas serras a lua que no sol cai

.

gaivotas do meu sonho agora adulto escondem-se no vento espiam

bailes copos trovoadas de sóis poentes terra vibrante ensandecida

alagada prole de ondas adormecidas searas jovens a romper

adiados abraços dedos e gritos palavras desfeitas talvez poemas

 

FERNANDO MANUEL PEREIRA

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POEMAS DE MIM

poesiasempreemluta — 25-07-2007 GTM 1 @ 15:03

 

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CIDADE INQUEBRÁVEL, VIVIDA

 

 cidade antiga de céu afagando a serra

íntimo horizonte    amplo de ilusões    tradições

gaivotas planando    amando    acima do rio

cântigo de voos sussurados nas ondas

em segredo de vida    melodia

como sombra errante eclodindo da noite

ventos    espuma de ondas    desnudas recordações

união entre o homem e a terra    concebida

.

poço do passado a cair no imenso abismo

dos passos antigos    repetidos    memórias

como um sonho em que nos afundamos

de pedras e ruas    barcos e remos    navegados

a pensar no azul líquido do rio da nossa saudade

rumos consentidos    madrugadas de fainas

melancolia a envolver-nos na sua afastada doçura

restos de sol poente    incendiado

.

furtivamente visitado    fugido por montes e vales

o tempo a correr sobre recordações desenfreadas

como olhares de crianças tristes    teia de fios de mel

doce torpor em poalha d'água    imutáveis

secreto desejo    campos e laranjais    terra virgem

barcos e rumos de ondas imaginadas    abençoadas

melodia que embala da minha meninice

memórias de luta    inquebráveis.

 

FERNANDO MANUEL PEREIRA

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SONHO FUGIDO

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nascidas das ruínas da guerra

lágrimas a cairem de olhares cegos

a desabarem como chuva

enrolando-se nos teus olhos

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onde a palavra não toca não fala

.

caos orgânico da cidade geométrica88.jpg

vivência do segredo engolido pelo jardim

suspenso nas vagas de espuma

que galgam muralhas

tuas mãos secretas luas sem sentido

moldam-te no +intimo de mim88.jpg

.

entranhável realidade

como a vida decorre

retoma e articula88.jpg

emerge específica

meus desejos caindo

no vazio da tua ausência

.

canto suspenso sem concessões

à luz das velas a apróximar memórias88.jpg

teus lábios como potes de lume

murmurando dilemas de loucos

sem a grandeza de outrora

melodia que embala meus pensamentos.

FERNANDO MANUEL PEREIRA

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 SOL I LÓQUIO

 

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1

nesta solitária dança

em que tudo se esboroa

como refrão a explodir

em lugar incerto

envolvido no manto insalubre

da água a mudar de lugar

em capricho de marés

lento e intimista percorro a cidade

perdida em si mesma

melodrama garrido

perto do mar escondido

depois dos telhados vermelhos

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2

ruas em leitos vazios de ribeiros

onde se teceram juras e promessas

o som fraco da respiração

acompanha o vento

onde as aves nidificam

antes da noite chegar

rendilhada de calçadas de granito

onde brilham letras ao longo do dia

como fardas de revolucionários

em constante recomeço

enleando-se no cume da serra

como segredos de ontem e de hoje.

FERNANDO MANUEL PEREIRA

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ROSTOS
realidade
sem rosto
barcos    brisa
eterniza o dia
sob os raios do sol
potentes
a correr
transparentes
a arder
natureza
quente bruma
grandeza
sem cores
sem navegadores
a correr a descer
doçura arco íris de candura
olhos de terra feitos mar
sobressaindo do azul das ondas
 .
  FERNANDO MANUEL PEREIRA
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BORDA MERDA, MORALISTAS

poesiasempreemluta — 25-07-2007 GTM 1 @ 12:39

 

 

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BORDA MERDA, MORALISTAS

 

Semblante pesado, sisudo, carraneudo

ou aberto, risonho, despretencioso, afoito

barba por fazer ou bem escanhoado, apurado

bem cheiroso ou empastado, sintonizado

.

de calças de ganga ou de terilene, vincadas

sapatos rotos ou saídos da loja, luzentos

unhas imaculadamente envernizadas, diáfanas

educadinho, prestável, compreendido, santificado

.

ou mãos calosas, embirrante, envinhado, afreguesado

de maus fígados e sonante tripa marota, ruidosa

socialmente adaptado ou de ombros encolhidos, acolchoados

bem penteado, engomado, aparafusado, circuncidado

.

de moral arcaicamente conservada em licoroso amplexo

cristãmente piedosa, ajoelhada, curva e redentora

frequentador de tascas manhosas, esquecidas e sitiadas

ou de casas apalaçadas, coerentes, caiadas, desinfectadas

.

bem nascido, bem parido, agasalhado, oleado

perfumado, embalado como prenda de circular cedência

nunca à margem dos padrões estabelecidos, convertidos

correcto, afável, freguês de putas publicitadas, conservadas

.

frequentador assíduo de mentes descascadas, ensaimadas

e locais sem mácula, envernizados e de bom tom nupcial

com púnicos de porcelana com florzinhas, acépticas

e sanitas sôfregas de mijanças fontanárias, em repuxo

.

abrangentes, espirais, abortivos mangas prósociais

nutritivos, nutridos festivaleiros, masturbantes

no banco das ditas murchas, supremos malmequeres

de bar em bar, expediente selado, rubricado, enviado

.

multicores, pacientes, dedinho no ar, ar subsidiado

picotados para mais fácil utilização labial, desconexa

em grupo, matilha perseguidora, enchente de esgoto retorcido

passinhos laicos, aflorando lajes pintadas com caca de pombo

.

amorosos, mentalmente caixas de vapor a prestações

passam atestados, certificam, amamentam e incomodam

tique cabeçal bem coçado, engomado, pré-datado

por entre arrotos de saber inato, menstruado, introduzido

.

viva a liberdade, viva a democracia, viva a moral rechunchuda

respeitosamente, veneradamente, com rótulo enluarado

e advertência para não exceder a data de consumo europeu moderno

nesta sociedade andarilha e lusa, enluvada, engabardinada

.

temos de ser ecrã de cinema, barbatana oscilante sem conduto

pista de circo, cântico de missa campal, perdoada, convocada

temos de ser tudo o que eles desejam, impõem, oficializam

cidadãos cumpridores, impolutos, simétricos, ascendentes

.

críticos com comichão no rabo, olheiros mansos, entupidos

acampados quotidianamente na pequenez mental, solvente, ausente

filhos da puta que nem cagar sabem ou se esforçam

idiotas afunilados em conceitos de impotente vigor, matéria prima

.

o invólucro não condiz com o conteúdo, é enteado

que desplante, ousadia infame saturante e permissiva

a deste devasso erguido em andor, em ombros de inferno

vejam, o gajo até faz poesia, não parece, pelo aspecto

.

mas pessoa civilizada e sem dívidas às finanças, virginal leviandade

e aos vizinhos próximos, futuros, inventados e perfilhados

devo reconhecer que no fundo estes excelsos e caninos cidadãos

são verdadeiros defensores da púdica moral pública, concentrada

.

fazedores de leis e de punhetas sociais, calibradas

frezadores de coitos, tomates e pilinhas alheias, ressonantes

boquinhas como túneis concorridos, amancebados

de livre trânsito, adubadas, preventivas e operantes

.

fregueses certos de actos públicos, moscatelados

incríveis navegantes sem bússula, enguias dançarinas

não desdenham o caseiro encontro, abortivos

sorriso encalhado, fandangueiro, boa boca, aparvalhados

.

apara-lápis de cais descoberto, vagamente avacalhado

torcido em chulé de meia branca, descomposta

chaminé intestinal de bacantes resquentadas, cigarradas

discurso de cáca, sapiente, iodado, enquadrado e mexido

.

elas e eles, sumarentos, de hortelã-pimenta enfeitados

guardiãos do tempo do templo, nas suas arcadas de crista

inteligentes antes do ovo, esperma de soda cáustica

rente ao chão, junto ao umbigo, a quatro patas

.

viver perto deles é salutar, valha-nos deus, qualquer deus

afinal são estes gatafunhos de gente, gente bem pensante, dizem

cozinhados junto ao cano de esgoto, com tempero a preceito

que alegra a vida do pai nosso e da avé maria, reciclada

.

não quero ficar por aqui, meus amigos escolhidos

ainda há muito que dizer, podem crer, o momento é salutar

gozá-los e fode-los deve ser prática comum, meritória

com perdão garantido, assinatura reconhecida, beneficiente

.

durante anos no lodaçal privado, bancada de teatro consentido

néctares flutuantes, engalanados a preceito, com geito

vozes doutas, refinadas, aclamadas, moralistas

calos de sebentas bentas, ornados de pez e penas, intriguistas

.

pervertidos, florestas queimadas, esventradas, sugadas

que percebem estes heróicos, fluorescentes críticos

do que se passa no interior das letras, enfileiradas

como sangue quente e vivo de palavras renovadas, intimistas?

.

caloteiros de horas aparvalhadas, minguados cabeçais

línguas de duvidosa procedência, pior aderência

convidados bacantes, merlos envelhecidos, conhecidos

convencidos da justeza profunda da queixada erguida, professoral

.

mas não são muitos, qualquer isco peidal os trás à rede

amachucados na própria sombra desbotada, respiram a medo

com sonhos de caixão e de rezas, choramingas escusos,pedinchões

pernas de asco, velas sem pavio, pecaminosas, esvaziadas

.

cá para nós, estes abortos consentidos por decreto membral

sabem de tudo, falam de nada, genciscães de nuvem escura

espíritos piamente amanteigados, enlatados, arranhudos

figuras de nhanha afiambrados, orvalhados, intrusos

.

reconhecidos representantes da coltura de rodapé, vai de roda

lê-los ou vê-los, ouvi-los a espalhar da boca as suas merdas

digo, críticas e moralidades bem pensantes, malandraças

é entender que o figo pita ou o rabo de raia é santo remédio.

.

E quando descarnar, se não encarnar em defunto

chegado ao cimo do nada, direi com gozo perpétuo:

 dai-lhe o céu, meu santo protector, são como tú

 cabeça cheia de merda e bordão enfiado no olho do cú.

 

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