
BORDA MERDA, MORALISTAS
Semblante pesado, sisudo, carraneudo
ou aberto, risonho, despretencioso, afoito
barba por fazer ou bem escanhoado, apurado
bem cheiroso ou empastado, sintonizado
.
de calças de ganga ou de terilene, vincadas
sapatos rotos ou saídos da loja, luzentos
unhas imaculadamente envernizadas, diáfanas
educadinho, prestável, compreendido, santificado
.
ou mãos calosas, embirrante, envinhado, afreguesado
de maus fígados e sonante tripa marota, ruidosa
socialmente adaptado ou de ombros encolhidos, acolchoados
bem penteado, engomado, aparafusado, circuncidado
.
de moral arcaicamente conservada em licoroso amplexo
cristãmente piedosa, ajoelhada, curva e redentora
frequentador de tascas manhosas, esquecidas e sitiadas
ou de casas apalaçadas, coerentes, caiadas, desinfectadas
.
bem nascido, bem parido, agasalhado, oleado
perfumado, embalado como prenda de circular cedência
nunca à margem dos padrões estabelecidos, convertidos
correcto, afável, freguês de putas publicitadas, conservadas
.
frequentador assíduo de mentes descascadas, ensaimadas
e locais sem mácula, envernizados e de bom tom nupcial
com púnicos de porcelana com florzinhas, acépticas
e sanitas sôfregas de mijanças fontanárias, em repuxo
.
abrangentes, espirais, abortivos mangas prósociais
nutritivos, nutridos festivaleiros, masturbantes
no banco das ditas murchas, supremos malmequeres
de bar em bar, expediente selado, rubricado, enviado
.
multicores, pacientes, dedinho no ar, ar subsidiado
picotados para mais fácil utilização labial, desconexa
em grupo, matilha perseguidora, enchente de esgoto retorcido
passinhos laicos, aflorando lajes pintadas com caca de pombo
.
amorosos, mentalmente caixas de vapor a prestações
passam atestados, certificam, amamentam e incomodam
tique cabeçal bem coçado, engomado, pré-datado
por entre arrotos de saber inato, menstruado, introduzido
.
viva a liberdade, viva a democracia, viva a moral rechunchuda
respeitosamente, veneradamente, com rótulo enluarado
e advertência para não exceder a data de consumo europeu moderno
nesta sociedade andarilha e lusa, enluvada, engabardinada
.
temos de ser ecrã de cinema, barbatana oscilante sem conduto
pista de circo, cântico de missa campal, perdoada, convocada
temos de ser tudo o que eles desejam, impõem, oficializam
cidadãos cumpridores, impolutos, simétricos, ascendentes
.
críticos com comichão no rabo, olheiros mansos, entupidos
acampados quotidianamente na pequenez mental, solvente, ausente
filhos da puta que nem cagar sabem ou se esforçam
idiotas afunilados em conceitos de impotente vigor, matéria prima
.
o invólucro não condiz com o conteúdo, é enteado
que desplante, ousadia infame saturante e permissiva
a deste devasso erguido em andor, em ombros de inferno
vejam, o gajo até faz poesia, não parece, pelo aspecto
.
mas pessoa civilizada e sem dívidas às finanças, virginal leviandade
e aos vizinhos próximos, futuros, inventados e perfilhados
devo reconhecer que no fundo estes excelsos e caninos cidadãos
são verdadeiros defensores da púdica moral pública, concentrada
.
fazedores de leis e de punhetas sociais, calibradas
frezadores de coitos, tomates e pilinhas alheias, ressonantes
boquinhas como túneis concorridos, amancebados
de livre trânsito, adubadas, preventivas e operantes
.
fregueses certos de actos públicos, moscatelados
incríveis navegantes sem bússula, enguias dançarinas
não desdenham o caseiro encontro, abortivos
sorriso encalhado, fandangueiro, boa boca, aparvalhados
.
apara-lápis de cais descoberto, vagamente avacalhado
torcido em chulé de meia branca, descomposta
chaminé intestinal de bacantes resquentadas, cigarradas
discurso de cáca, sapiente, iodado, enquadrado e mexido
.
elas e eles, sumarentos, de hortelã-pimenta enfeitados
guardiãos do tempo do templo, nas suas arcadas de crista
inteligentes antes do ovo, esperma de soda cáustica
rente ao chão, junto ao umbigo, a quatro patas
.
viver perto deles é salutar, valha-nos deus, qualquer deus
afinal são estes gatafunhos de gente, gente bem pensante, dizem
cozinhados junto ao cano de esgoto, com tempero a preceito
que alegra a vida do pai nosso e da avé maria, reciclada
.
não quero ficar por aqui, meus amigos escolhidos
ainda há muito que dizer, podem crer, o momento é salutar
gozá-los e fode-los deve ser prática comum, meritória
com perdão garantido, assinatura reconhecida, beneficiente
.
durante anos no lodaçal privado, bancada de teatro consentido
néctares flutuantes, engalanados a preceito, com geito
vozes doutas, refinadas, aclamadas, moralistas
calos de sebentas bentas, ornados de pez e penas, intriguistas
.
pervertidos, florestas queimadas, esventradas, sugadas
que percebem estes heróicos, fluorescentes críticos
do que se passa no interior das letras, enfileiradas
como sangue quente e vivo de palavras renovadas, intimistas?
.
caloteiros de horas aparvalhadas, minguados cabeçais
línguas de duvidosa procedência, pior aderência
convidados bacantes, merlos envelhecidos, conhecidos
convencidos da justeza profunda da queixada erguida, professoral
.
mas não são muitos, qualquer isco peidal os trás à rede
amachucados na própria sombra desbotada, respiram a medo
com sonhos de caixão e de rezas, choramingas escusos,pedinchões
pernas de asco, velas sem pavio, pecaminosas, esvaziadas
.
cá para nós, estes abortos consentidos por decreto membral
sabem de tudo, falam de nada, genciscães de nuvem escura
espíritos piamente amanteigados, enlatados, arranhudos
figuras de nhanha afiambrados, orvalhados, intrusos
.
reconhecidos representantes da coltura de rodapé, vai de roda
lê-los ou vê-los, ouvi-los a espalhar da boca as suas merdas
digo, críticas e moralidades bem pensantes, malandraças
é entender que o figo pita ou o rabo de raia é santo remédio.
.
E quando descarnar, se não encarnar em defunto
chegado ao cimo do nada, direi com gozo perpétuo:
dai-lhe o céu, meu santo protector, são como tú
cabeça cheia de merda e bordão enfiado no olho do cú.
