UM NADA, AFINAL TUDO
Deixa-me cumprir o protocolo,
Gargalhar, arquivar meu fato de palavras,
Brincar de faz-de-conta nesta modorra libertina,
Neste cubo de loucura, olhos abertos a riscar sonhos,
Entre dedos regressivos, calafrios longos, subtis,
Soltos na tua respiração, entre brancas, tocadas nuvens,
Velejando nas pranchetas dos meus desenhos rasgados.
Momentos fugidos, fugidios, arcanos desnudados,
Nascem fugazes nos caminhos perdidos, imaginados
Como lamentações deixadas soltas à beira dum rio,
A descansar nos braços da penumbra que desagua
No regaço doido da esventrada pedra filosofal,
Memória de encantamentos na noite insólita, perene,
Como fogo que queima lentamente em cada teu olhar.
Recordações de um nada, quase nada, afinal tudo,
Voando afastadas das encostas modeladas que lhe deram vida,
Brincando na areia, ventre do cais urbano, em construção de renda,
Entregues ao balanço duma cidade azul recém-nascida, possuída,
Por entre fumo de sons, desavenças, presenças, fráguas longínquas,
Enquanto junto à lua a sereia embala o mar, beijando-o.
É, talvez, a sombra do teu corpo, onde me banho, a sonhar…
FERNANDO MANUEL PEREIRA