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POESIA sempre EM LUTA

Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo.
GravatarPudesse eu retirar a pele que envolve esta cidade, descobrir as cavernas que lhe amamentam o ventre, alicerces vegetais de sonhos desfeitos, ao vento, raivas de começo, armaduras de seios, sons antigos...

Se quiseres escrever-me

DE LUGAR NENHUM, UM DIA

poesiasempreemluta — 09-04-2008 GTM 1 @ 17:58

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.

na tua vista a minha espelhada

horizonte sem brisas flor do dia

surgida da noite como rio silencioso

por entre nuvens negadas à melodia

 .

no tombadilho ressoam turbilhões

contam-se contos escondem-se fadas

lendas antigas à flor-da-pele

memórias de metáforas desalinhadas

 .

na tua vista a minha vista espelhada

pousa esta paixão sem altares  ou portos

na pele do desejo com algemas de lua

por entre horas atadas em beijos loucos

 .

um dia sei que os voos de longe

vão no meu sonho ficar pousados

como escravos entre escombros

nas prisões dos calendários apagados

 .

sem receio dos cânticos das sereias

vozes trazem-te como das fadas o gosto  

nesta invenção de um pôr-de-sol só meu

que jamais se espelhará em teu rosto.

 


9|ABRIL|2008 

 .

FERNANDO MANUEL PEREIRA

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TUDO O MAIS É PREVISÍVEL

poesiasempreemluta — 03-04-2008 GTM 1 @ 14:57

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Trazem nos olhos as revoltas dos países colonizados

pólem salgado de palavras invulgares, salientes, 

reduzidas ao silêncio pelos negros tanques uníssonos,

agitadas na perturbação que desfila de vestes vermelhas,

quilómetros de medos explodindo nos protestos,

numa resistência heróica que sai à rua e denúncia.


 

Sacrifício em nome de ideais e nós calados, silêncios,

fechamos o mundo e ninguém quer ver e sentir, perceber,

o silêncio das minorias agitadas, punhos cerrados, razões,

mantidas na ordem pelo poder da bala, intimidação e sangue

e pelo brilho do ouro e do petróleo, apocalipse exultado,

que rasgam bandeiras e oliveiras, culturas e liberdades


 

À jorna cobramos os descampados de berços, forjados,

é lá que os desfiladeiros se apertam à passagem, sequestrados,

sem relatos e sem vítimas formais, tendências desviantes,

a brutalidade vive impregnada  nos instintos da violência

caixote do lixo das almas, réplicas humanas de répteis,

com a ficção transformada em desconhecida realidade.


 

Neste parágrafo interminável quem consegue conviver

pra lá da aparência das coisas que se dissolvem na morte?

FERNANDO MANUEL PEREIRA

3|Abril|2008 

 

CANTO QUE VEM DA TERRA

poesiasempreemluta — 29-03-2008 GTM 1 @ 12:25

 

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1

algo novo voa rasteja sem resposta

viola o medo no meio da estrada viseja

na hora escura da vida varanda entre mundos

e um verso em branco que me escapa afugenta

o vento norte forte de cinzento acasalado

por entre vozes de crianças esfomeadas

feridas de soldados fugidos das guerras pintados

em longos beijos sem final passageiro anunciado

na assombrada pele benzida em cada poeta do mundo

  

2

nesta inválida coluna do triunfo excitação

plebeus e patrícios ajuramentados no canto voz imagem

como reza maná em bicos de aves de rapina em desfilada

reflexos de estrelas adormecidas conchas com outros mares

destruindo sinos acorrentados fecundados sem seios

nas sombras corpos vazios entre nós expelindo essências

roubando o silêncio do fogo sagrado não já eterno

passos sem vozes lamentos rasgando bandeiras pensamentos

lugares sem culto domesticados em secos silvados

 

3

para descobrir um caminho quantas letras são necessárias

neste labiríntico canto que vem da terra e é nosso?

29|MARÇO|2008

 

FERNANDO MANUEL PEREIRA

UMA VISÃO DO PARAÍSO?

poesiasempreemluta — 19-03-2008 GTM 1 @ 19:42

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Fita-me com olhos acordados, abertos e húmidos

como quem seja dor, minhas dores, fecundas, palpáveis

deixando-me a visão do pecado, dos sentidos, carruagens

dançando em arco na melodia, seta aguçada, dirigida

por entre copas de árvores, encostas de sangue e pele

fugazes estrelas vegetais em caminhos d’água, antigos

voando nas folhas dos ventos, odres de nuvens, museus

como quem toma de mim, para mim, correntes de seiva

felicidades e humores hesitantes, inacabados, obscuros

anjos de medos maltratados, fartos e despudorados

com gosto de sangue e tempestade, desfeita, incolor

em fruto e devaneios consensuais, conventuais e rezas

em campos de rosas secas não colhidas, como vidas retornadas.


 

Afinal, o que me fita com olhos acordados, abertos e húmidos?

 .

FERNANDO MANUEL PEREIRA

Á VOLTA DESTE QUADRO

poesiasempreemluta — 15-03-2008 GTM 1 @ 23:14

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.

 

espíritos sem descanso metralham florestas traídas

duas palavras sobre a guerrilha precavida previsível

escalada verbal tom de farsa imagens marcantes discursos

um habitante da aldeia na primeira fila das cadeiras

ao serviço dos mortos recupera pavimentos angústias

sem crematório o medo no parapeito feito para agradar

das janelas visíveis buracos no chão escondidos

uma carroça parada morada de exércitos envolvidos

outra geração a triplicar no som das granadas desmorona-se

 

escuto discuto o retorno religioso artistas ambulantes

do matemático orquestra a calcular entre uns e outros

o embrião do pensamento a completar o elenco

esguio e abundante incorporada ficção já se sabia ao que vinha

um colete salva-vidas sem cronologias lençóis brancos

dançam e saltam desarrumam carregantes montanhas

as esquinas de bicos onde o sol se esvai obsessões cénicas

em documentos de palavras e de obras adereços memórias

sem pensarem nos textos de amanhã um prédio nos subúrbios

 

do sonho difícil a resposta tem o outro lado da viagem

estamos a representar aldeia sem cadeiras chaminés

a água resiste à ditadura projectada mobilizada utopias

carestia de vida decorrem séculos em cartazes censurados

a voz vem do passado enfraquecida longa ausência

imortaliza ao vivo o início das novas canções silenciadas

iremos todos para o inferno podíamos fazer de alvo

pouco tempo antes de morrer pinto um auto-retrato

e para lá do retrato regressarei à hora das multidões

 

.

FERNANDO MANUEL PEREIRA



(15Março2008)

21 de MARÇO - DIA MUNDIAL DA POESIA

poesiasempreemluta — 15-03-2008 GTM 1 @ 22:46

Com o objectivo primeiro de defesa da diversidade linguística, a UNESCO decidiu, em 1999, proclamar o dia 21 de Março, Dia Mundial da Poesia. O Plano Nacional de Leitura (Ministérios da Educação e Assuntos Parlamentares) e o Centro Cultural de Belém (Ministério da Cultura) associaram-se para assinalar a data, no ano de 2008. Excepcionalmente, e porque este ano, o dia 21 de Março é Sexta-feira Santa, vamos comemorar o DIA MUNDIAL DA POESIA no Sábado, dia 22 de Março. O programa, que se estenderá das 12h00 às 20h30, ocupando todo o piso térreo do Centro de Reuniões, inclui uma feira do livro de poesia, conferências, audição de DVD’s de poetas, uma exposição de poesia visual e culminará com um espectáculo no Grande Auditório. A entrada é livre.

A SAUDADE, COMO UM ABRAÇO

poesiasempreemluta — 12-03-2008 GTM 1 @ 16:59

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(para o ZECA AFONSO, Cantor e Poeta de luta, cuja voz e personalidade ainda hoje incomoda políticos e poderes)

  .  

Moramos todos neste lado da cidade

Neste segredo conhecido  feito de  gritos de guerra

Porque um rio é sempre de quem nele vive e espera

E as noites nascem clandestinas e sem idade

Vestidas de todas as peles, como lâminas cortantes

Onde floresciam medos e desejos partilhados

E a raiva se alongava pra lá dos breves instantes

Em cada instante dos teus poemas cantados

   

Naquele tempo de mordaças e de guerra

Vestíamos o horizonte de desejada liberdade

E numa silenciosa e entendida cumplicidade

Nascia do sonho nosso uma nova terra

Nada sei de canções de despedida

Continuo a ouvir-te na memória desta vida

Porque o tempo não consegue apagar a tua voz

E tu estás sempre vivo e presente entre nós!

 

FERNANDO MANUEL PEREIRA

 

CANCRO POLÍTICO

poesiasempreemluta — 03-03-2008 GTM 1 @ 22:33

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Parasitas sem escrúpulos

parasitas ideológicos

facciosos

impostores

oportunistas.

Não lhes perdoais, Senhor.


 

Nadam na cloaca da corrupção

açaimam e subjugam

cobardolas endémicos

engravatados

sem serem engavetados

Não lhes perdoais, Senhor.


 

Conheço dois

dizem-me que há mais

anónimos

escondidos

a praga parece grande

Porque lhes perdoais, Senhor?

.

(3 Março 2008)

.

FERNANDO MANUEL PEREIRA

 

NAS MARGENS DO VENTO

poesiasempreemluta — 27-02-2008 GTM 1 @ 01:02
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(para a Amélia, amor retribuído)
.
das coisas que eu queria ter dito
como se não bastasse dizê-las
o vento afagando as ondas
até onde se avista o mar
soprou por entre teus dedos
voos perpétuos de gaivotas
circulando pelo meu corpo
como cavalos de seda e sós
 
por mim falou e calou
deste amor reinventado
sonho a sonho descoberto
nas coisas que não te disse
porque só bastava dizê-las.
FERNANDO MANUEL PEREIRA